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FAMÍLIA
Família

Violência na família
2009-03-11

Violência na família

Introdução

Habitualmente, a família constitui o primeiro e o mais importante espaço de crescimento físico, intelectual, afectivo e moral. Através de uma relação privilegiada com as figuras parentais, e muito particularmente com a mãe nos primeiros meses de vida (ou uma sua substituta), o bebé vai aprendendo a conhecer o mundo que o rodeia e vai percebendo que ele é diferente das outras pessoas, tendo cada uma delas a sua identidade própria. Esta é, sem dúvida, uma aquisição difícil, mas importante, que se vai processando durante toda a infância mas que se inicia por volta do segundo semestre de vida.

Um dos aspectos que dificulta este processo de reconhecimento da diferença e da distinção entre o Eu e o Outro resulta da fusionalidade, isto é, da estreita relação em que a díade, ou o par mãe-filho, inicialmente se encontra. Aquando do nascimento, o obstetra ou a parteira cortam o cordão umbilical que liga o recém-nascido à mãe. No entanto, e apesar deste desligamento, o bebé necessita de manter uma relação de forte ligação e dependência (ligação fusional) com a figura adulta a quem se vai vincular (figura de vinculação principal): é ela que não só o vai alimentar, mudar quando está sujo, aquecer quando tem frio ou libertar de alguma roupa quando tem calor, como é também a mãe que vai perceber aquilo de que o seu filho necessita em cada momento.

Nascendo cheio de potencialidades, o recém-nascido é, contudo, inicialmente muito imaturo e tem apenas o corpo e a voz para comunicar. O choro, os movimentos do corpo, a mímica vão sendo progressivamente interpretados pela mãe que passa a saber cada vez melhor quando é que o bebé está a chorar porque tem fome, ou quando é que o faz porque tem a fralda suja ou porque, muito simplesmente, quer companhia e quer tagarelar com alguém. Desta forma, a mãe (e também outras pessoas como o pai, os irmãos, os avós, etc.) vai ajudando o bebé a descodificar as suas emoções e a dar nome às coisas, num processo que é extremamente importante para o desenvolvimento da sua capacidade de pensar e para o aparecimento e desenvolvimento da própria linguagem.

 

Os problemas de comunicação

Como podemos facilmente compreender esta tarefa não é fácil, pois o bebé comunica de uma forma muito diferente da nossa. Há, portanto, muitas situações em que a mãe não acerta com aquilo de que o bebé necessita e este, nessas circunstâncias, chora, e por vezes chora muito, deixando a mãe muito cansada e muito desesperada. Habitualmente ela já está cansada por outras razões (noites mal dormidas, divisão da atenção e dos cuidados entre o bebé e os outros irmãos, lida da casa, trabalho) e, por vezes, sente-se triste, com falta de força, muito sensível nos meses que se sucedem ao parto (podendo sofrer daquilo que se chama depressão pós-parto e que tem que ser diagnosticado por um profissional de saúde e tratado convenientemente). Por umas e por outras razões, pode acontecer que, entre a mãe e o bebé, se desenvolvam dificuldades de comunicação. Em situações mais desesperadas, a mãe pode mesmo desistir, deixando o bebé sozinho, entregue a si próprio por períodos mais ou menos longos e, nem sempre, em condições de segurança.
Quando isto se repete com frequência, o bebé começa a ser negligenciado, isto é, começa a não ser atendido nas suas necessidades físicas (alimentação, higiene, saúde, protecção, vigilância face ao perigo, habitação) e afectivas (contacto corporal, carícias, mimos, brincadeiras, companhia). Outras vezes, em situações em que a mãe procura, sem o conseguir, fazer com que a criança lhe obedeça e faça aquilo que ela entende que é necessário e correcto (por exemplo, comer a papa, dormir, estar acordado) pode surgir um comportamento mais violento (berros, pancada, apertões, etc.) que, em função da sua intensidade e do local em que o bebé é atingido, pode chegar a pôr em perigo a sua saúde ou mesmo a sua vida. A violência pode, como vemos, surgir nestas ocasiões.
Quando a mãe e o bebé não estão sozinhos, outras pessoas como o pai, os irmãos, os avós, os tios, etc., podem ajudar a esbater estas tensões mas podem, também, aumentá-las (por darem indicações contraditórias, por exigirem também uma parte da atenção, por criarem muito ruído e confusão, por criarem alianças de uns contra os outros) e, nessa altura, a violência pode alargar-se e envolver mais pessoas.

Como acabei de referir, o início da vida de um bebé obriga a uma dependência muito grande entre ele e a mãe (ou seu substituto). Mais ou menos a partir dos seis meses, essa forte ligação deve começar a transformar-se para dar lugar a uma dependência cada vez mais relativa, de modo a permitir não só que outras pessoas (desde logo o pai, mas também outros elementos) passem a fazer parte activa da vida do bebé como a possibilitar-lhe a experiência de estar sozinho. Será na ausência da figura de vinculação que o bebé aprende a distinguir-se dos Outros, pois só nessa altura compreende que os esses Outros não são um prolongamento dele próprio (do seu Eu) nem estão sujeitos integralmente à sua vontade (omnipotência).
A gestão deste equilíbrio entre uma grande dependência e uma dependência relativa é algo que se torna simultaneamente difícil para a mãe e para a criança. À medida que cresce, esta vai experimentando novas forças e vai testando o adulto no sentido de ver o que é que pode ou não pode fazer e até onde é que tem capacidade para ser ela a determinar o rumo dos acontecimentos e a influenciar o comportamento dos outros. À medida que o tempo vai passando e que a mãe vê o seu filho crescer, ela percebe que ele vai tendo cada vez mais capacidades para se ir autonomizando: mas se isso, por um lado, lhe dá geralmente prazer, por outro lado, fá-la experimentar um terrível sentimento de perda com o qual nem sempre lida muito bem e face ao qual é, muitas vezes, tentada a reforçar os laços de dependência, tornando-se "mãe galinha" e podendo submeter demasiadas vezes a criança à sua vontade. Esta, no entanto, e ao mesmo tempo que necessita de ser amada e protegida, reforçada nas suas necessidades de dependência, procura libertar-se da corrente de afectos que a aprisiona, provocando o adulto no sentido de, por vezes da forma mais inadequada e inábil, testar, simultaneamente, a sua capacidade de dar afecto e de dar autonomia.

 

Os conflitos

É neste contexto que se geram, quer na infância quer na adolescência, muitas guerras que terminam, mas também se prolongam, em actos de violência psicológica (insultos, gritos, críticas permanentes, desvalorizações, ameaças de abandono) e/ou física (empurrões, bofetadas, tareias, queimaduras, mordeduras, etc.). Na infância, como a criança tem menos poder físico do que o adulto e o vê, habitualmente, como tendo mais autoridade (hierarquia vertical) os comportamentos violentos ocorrem mais frequentemente do adulto para a criança, sendo esta, na grande maioria das vezes, a vítima. Numa situação de maior semelhança com o adulto (quer em termos físicos quer em termos cognitivos), o adolescente pode, também, aparecer como agressor, alternando, muitas vezes, com o adulto, num jogo de papéis em que, ora sendo um vítima e o outro agressor e vice-versa, é a própria violência que se auto-alimenta.

Como pudemos perceber, a violência está muito ligada a dois aspectos:
a) por um lado, à necessidade do agressor impor a sua vontade e de submeter o outro a essa mesma vontade, mantendo, assim, uma relação de forte dependência e ligação;
b) por outro lado, ao exercício da autoridade e da disciplina. Não admira, portanto, que possamos assistir ao aparecimento, ou aumento, de comportamentos violentos em alturas em que a vítima tem mais necessidade de regras e limites e em períodos em que manifesta maior necessidade ou em que expressa mesmo a sua autonomia. Ser pai é, sem dúvida, difícil pois exige um constante equilíbrio entre ser firme, sem ser autoritário, e amar sem asfixiar o outro, entre dar e receber. Nem sempre os nossos próprios pais conseguem criar em nós a confiança de que necessitamos para nos sentirmos suficientemente amados e capazes de amar os outros, respeitando a sua individualidade. Quando isso acontece, temos tendência a sentirmo-nos fracos, a confiarmos pouco em nós e, paradoxalmente, procuramos dominar os outros como forma de nos dominarmos a nós próprios e de nos ressegurarmos do seu amor. Por essa razão encontramos muitas histórias de pais que maltratam os filhos e de filhos que, quando se tornam pais, também maltratam os seus próprios filhos, numa cadeia que, felizmente, por vezes se interrompe mas que tem bastante tendência para se perpetuar.

Em famílias e em sociedades em que as hierarquias são muitos rígidas (e em que, portanto, quem manda e quem obedece estão em níveis de poder muito diferentes), em que as crenças em torno da obediência e do respeito consideram que quem está no topo da hierarquia tem o direito de ser obedecido em qualquer circunstância e que quem obedece o deve fazer sem contestação, em famílias e em sociedades em que o grau de autonomia relativa dos sujeitos é muito pequeno (porque existe uma forte dependência de uns face aos outros) e em que se considera que os homens são mais fortes e devem exercer a sua protecção sobre as mulheres, consideradas estas mais frágeis, submissas e dependentes, a possibilidade de surgirem comportamentos violentos como forma de resolver questões de poder, de auto-afirmação, de contestação e de autonomia pessoal é muito grande. É nesse sentido que temos todos que estar atentos, de forma a respeitarmos o Outro na sua individualidade, para nos respeitarmos a nós próprios e sermos por ele respeitados, e de modo a encontrarmos formas menos destrutivas de resolvermos as nossas dificuldades, divergências e conflitos.

Há famílias em que a violência ocorre, fundamentalmente, entre o casal. As razões são, em minha opinião, as mesmas: muitas vezes pouco seguros de si próprios, estes dois adultos criam uma forma de comunicação em que um ataca e o outro se torna vítima mas em que, geralmente, ambos contribuem para a perpetuação da violência. As suas famílias de origem (isto é, os seus pais, irmãos, cunhados, tios, etc.) estão, na maior parte das vezes, envolvidas, mesmo quando isso não é muito claro e mesmo quando o que todos mais querem é ajudar.
Quando têm crianças, aqueles adultos não conseguem desenvolver a sua relação sem que elas também nela participem, umas vezes porque são os próprios pais que as chamam como aliadas, outras vezes porque são elas que querem participar, convencidas de que poderão pôr fim à própria violência. Pura ilusão! No início, os filhos procuram, através daquilo que dizem ("não vos quero ver zangados", "não quero que lhe batas") ou do que fazem (do seu choro, das suas pequenas perrices ou chamadas de atenção, por exemplo), mostrar aos pais que querem que a situação se altere. No entanto, se ela se prolonga, colocam-se do lado do progenitor que é vítima, procurando consolá-lo e, por vezes, defendê-lo.
É também nesta altura que, muito frequentemente, se voltam contra o progenitor agressor, criticando-o ou desafiando-o na sua autoridade. Como podemos facilmente compreender, nestas circunstâncias, as crianças correm sérios riscos de serem também elas agredidas (física e/ou psicologicamente), pois o agressor não pode aceitar ver-se contestado nem desafiado. A vítima adulta pode ser, ainda, mais agredida dado que o agressor pensa que foi ela que incitou as crianças a tomarem aquelas atitudes. Por vezes, os pais têm períodos de tréguas: só que, nessa altura, as crianças sentem-se frequentemente traídas pelo progenitor vítima e, não percebendo o que se passa com os pais, tendem a tornar-se rebeldes e, frequentemente, vítimas da zanga do pai e da mãe.



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COMENTÁRIOS DESTE ARTIGO
Inserido em 2009-03-26 às 19:51:22, por utilizador devidamente identificado
Assunto: Teste de Comentário
Comentário: Nada a dizer.
Inserido em 2009-03-27 às 14:25:52, por utilizador devidamente identificado
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Comentário: Nada a dizer.
Inserido em 2009-03-27 às 14:29:24, por utilizador devidamente identificado
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