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LEGISLAÇÃO
Legislação

Plano Nacional contra a Violência Doméstica
2009-03-12

Introdução

A publicação de um plano nacional contra a violência doméstica enquadra-se no 50." aniversário da Decla­ração Universal dos Direitos Humanos. A violência doméstica põe em causa a ideia essencial do edifício dos direitos da pessoa humana, segundo a qual todos os seres humanos têm igual valor e dignidade. A questão da violência domestica é de âmbito social e psicológico. Tem as suas raízes no mais profundo dos indivíduos, mas também nas ideias, valores e mitos que estruturam a sociedade. Não se pode ignorar que a violência está presente desde os primórdios da vida humana e é neste momento que a norma jurídica intervém estabelecendo direitos e valorando factos e comportamentos.

É-se vitima de violência por parte de outrem quando as manifestações agressivas deste, criam no outro uma situação de constrangimento e de submissão de que não consegue sozinho) libertar-se, ficando, portanto, numa situação de sofrimento e risco psíquico e ou físico, de que o outro abusa de forma arbitrária e injusta. Têm-se registado alguns progressos, nomeadamente no âmbito legal, nos últimos tempos, no que se refere à abordagem deste autentico flagelo social. Mas a lei pai a nada serve se não for aplicada. O papel do Estado é fundamental e nem a política de não ingerência nos assuntos privados nem os valores e costumes tradicionais podem sei Invocados para impedir a luta contra a violência doméstica.

De entre as várias definições de violência contra as mulheres destacamos a do grupo de peritos do Conselho da Europa, segundo a qual «qualquer acto, omissão ou conduta que serve para infligir sofrimentos físicos, sexuais ou mentais, directa ou indirectamente, por meio de enganos, ameaças, coacção ou qualquer outro meio, a qualquer mulher e tendo por objectivo e como efeito intimida-la, puni-la ou humilha-la ou mantê-la nos papéis estereotipados ligados ao seu sexo, ou recusar-lhe a dignidade humana, a autonomia sexual, a integridade física, mental e moral ou abalar a sua segurança pessoal, o seu amor-próprio ou a sua personalidade, ou diminuir as suas capacidades físicas ou intelectuais. A utilização da violência, nomeadamente contra as mulheres, crianças o Idosos, constitui uma violação dos direitos fundamentais da pessoa humana: esta afirmação assenta no consenso Internacional.

Várias conferências internacionais (Declaração de Viena e programa de acção da Conferencia Mundial dos Direitos Humano:., 1993. 4." Conferência Mundial sobre as Mulheres, Pequim) se preocuparam com a questão, o Conselho da Europa abordou-a de diversos modos desde há vários anos, tendo o Comité dos Ministros do Conselho da Europa adoptado duas recomendações sobre o assunto, as recomendações da Conferência da Presidência Austríaca da UF, Baden, Viena, Dezembro de 1982, e as da Conferência da Presidência Alemã da UE, Colónia. A Declaração de Genebra de 1924 sobre os Direitos da Criança e a Declaração dos Direitos da Criança adoptada pelas Nações Unidas em 1959 reconhecem que a criança, por motivo da sua falta de maturidade física e intelectual, tem necessidade de uma protecção e cuidados especiais, nomeadamente de protecção jurídica adequada, tanto antes como depois do nascimento. A Convenção sobre os Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Novembro de 1989,faz reter a necessidade de protecção por parte do Estado às crianças vítimas de violência na família e o direito à protecção e assistência especiais do Estado quando, no seu superior interesse, são temporária ou definitivamente privadas do seu ambiente familiar.

É assim que o plano internacional de acção de Viena sobre o envelhecimento, publicado na sequência da Assembleia Mundial do Envelhecimento, que teve lugar em Viena em 1982. já aponta, em algumas das suas recomendações, para a necessidade dos países estarem a tentos às questões da violência contra as pessoas idosas A Organização das Nações Unidas, na sua Recomendação n.º 46/91. alerta os governos para a necessidade de integrarem nos seus programas nacionais os seguintes princípios: dignidade (aos cidadãos mais velhos devem ser garantidas fundições dignas de existência, de segurança, de justiça, autonomia, desenvolvimento pessoal, acesso a cuidados e participação.

O Conselho da Europa, na sua Recomendação de 18 de Setembro de 1998, do Conselho dos Ministros dos Estados membros relativa à dependência, refere que "quando a liberdade de escolha não é possível em razão da incapacidade da pessoa idosa, uma protecção jurídica deve ser assegurada".. Devemos libertar-nos de estereótipos, estudar as atitudes e definir as estratégias para combater o processo de violência domestica. É altura de agir concretamente e com lucidez: a eliminação da violência doméstica é um elemento indispensável na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, fundada no respeito dos direitos da pessoa e na dignidade humana. Considera-se fundamental procurar uma aproximação pratica e inovadora ao tema, sublinhando o papel dos agressores em todos os aspectos da questão e abordando-o como problema social e não como problema das vitimas. Proteger e ajudar as vitimas não é suficiente para pôr cobro à violência e aos maus tratos. Para combater a violência é necessário ocuparmo-nos da pessoa violenta. Considera-se urgente aprofundar os métodos de cooperação entre todos(as) os(as) implicados (as) pessoal ou institucionalmente nos processos de resposta aos problemas da violência doméstica. As dificuldades e os obstáculos que se lhes deparam deverão ser debatidos E importante continuar a examinar as razões da violência doméstica, estudando os contextos e os mecanismos.

As dificuldades de apuramento de dados, face à não declaração de inúmeras situações, pelo que o estudo e investigação são essenciais. A constituição de uma plataforma contra a violência doméstica, visando reforçar a integração dos esforços desenvolvidos pelos poderes públicos e pelos diversos organismos privados, é o caminho escolhido. Como resulta das conclusões de um seminário sobre o tema «Violência contra as mulheres» patrocinado pelo Gabinete do Alto-Comissário, a questão deverá ter uma abordagem integral e integrada. Integral porque o fenómeno se articula com questões tais como a desigualdade entre mulheres e homens e a vulnerabilidade dos idosos e das crianças, a pobreza e a exclusão social. Integrada no sentido de uma intervenção articulada dos mecanismos governamentais e não governamentais Sabido que a especial vulnerabilidade de muitas das pessoas com deficiência as torna, também, um alvo privilegiado do exercício da violência doméstica, a sua não referência expressa no plano resulta do facto de estarem, naturalmente, incluídas nos diversos grupos mencionados, pois em todos eles há pessoas com deficiência.

 

Objectivo I : Sensibilizar e prevenir

1.1 - Integrar nos planos curriculares e desenvolver nas praticas pedagógicas, desde a educação pré-escolar e numa perspectiva de não violência, nos currículos escolares e na prática pedagógica, temas relacionados com os direitos humanos na família, designadamente a igualdade de rodas as pessoas que a compõem os direitos dos seus membros mais vulneráveis, os aspectos positivos das relações interpessoais, dos valores da cidadania, do afecto e da sexualidade e o principio da regulação negociada dos conflitos.

1.2 - Desenvolver na prática pedagógica, desde a educação pré-escolar, procedimentos que permitam a vivência concreta destes princípios, reconciliando-se a necessidade de intensificar a articulação com a família e os serviços existentes, dimensionando-os de acordo com as necessidades e promovendo a adequada supervisão

1.3 - Sensibilizar os diversos agentes do sector da comunicação social (média. profissionais, autoridades de regulação e órgãos de auto-regulação, associações de profissionais e de empresários, escolas de jornalismo, instituições de ensino superior e centros de formação profissional com cursos em áreas da comunicação social), públicos e privados, para os fins da presente resolução.

1.4 - Encorajar as entidades referidas no n.º 1.3 a contribuir para a promoção de uma cultura de respeito pelos direitos e deveres de cada um dos membros da família, em particular dos mais fragilizados (mulheres, crianças e idosos), assente na sensibilização para uma efectiva partilha das responsabilidades domésticas e do cuidado com os filhos no sentido de evitar a transmissão de imagens e estereótipos que impliquem superioridade de um dos sexos, podendo, assim, fomentar a violência doméstica, neste caso no que se refere às mulheres.

1.5 - Realizar campanhas de sensibilização da opinião pública que visem contribuir para a promoção de uma cultura de não violência baseada no respeito pelos direitos e deveres de cada um dos membros da família, em particular dos mais fragilizados (mulheres, crianças e idosos).

1.6 - Integrar, nas diversas campanhas de sensibilização da opinião pública, a consciência de que a violência domestica é um crime previsto na lei portuguesa, uma violação grave dos direitos humanos e uma responsabilidade de toda a sociedade.

1.7 - Elaborar material informativo e formativo sobre a prevenção, a identificação e os factores da violência doméstica, dando particular atenção ao material destinado aos profissionais, bem como transcrever, publicar e difundir textos internacionais sobre a problemática da violência doméstica

1.8 - Conceber e executar uma estratégia coordenada e pluridisciplinar entre os diversos serviços da administração central, regional e local e os parceiros sociais, nomeadamente nas áreas da educação, da justiça, da saúde, da cultura, da solidariedade e da administração interna, tendo em consideração quer a prevenção, quer o apoio, quer a reparação de situações de vitimas de violência doméstica.

 

Objectivo II

2.1 - Criar uma base de dados organizada em rede sobre serviços, equipamentos e medidas legislativas, de gestão conjunta de vários ministérios e parceiros sociais a que possam aceder serviços da administração central, regional e local e organizações/associações particulares, para resolução imediata de situações de risco ou de violência

2.2 - Alargar o horário de funcionamento dos serviços telefónicos de emergência existentes (vinte e quatro horas/dia) parea informação e encaminhamento permanente das vitimas de violência domestica.

2.3 - Reforçar as secções de atendimento directo às vitimas de violência junto dos órgãos de policia criminal competentes.2

2.4 - Atribuir prioridade a cursos ou módulos de formação profissional adequada que visem potenciar capacidades e promover a consciencialização dos direitos humanos a todos os profissionais envolvidos na resolução de situações de violência a nível policial, judiciário, do Ministério Público, da saúde, da educação e dos serviços sociais, no sentido de um melhor conhecimento da dinâmica da violência domestica e do seu impacte nas crianças, a fim de minimizar as consequências da agressão e proteger as vítimas, prevenindo futuras agressões

2.5 - Elaborar e distribuir guias destinados às vítimas de violência doméstica e aos técnicos que com ela lidam

2.6 - Promover e reforçar o apoio técnico e finan­ceiro adequado às organizações/associações cujo objectivo seja a protecção das vitimas de violência doméstica, dando prioridade a programas que visem o seu apoio e acompanhamento.

2.7 - Estudar a possibilidade da concessão de poderes legais suplementares, quer às forças de segurança. quer às autoridades judiciais, que as legitimem a determinar a expulsão imediata e provisória do agressor da casa de morada da família, quando haja indícios de violência que, razoavelmente, façam prever que os actos de agressão se venham a repetir por forma a criar um perigo para a vida ou para a integridade física da vitima.

2.8 - Criar, no âmbito da lei penal, uma pena acessória que consista na proibição de o agressor se aproximar da vitima.

2.9 Criar medidas processuais para protecção de testemunhas, sejam elas as vitimas ou pessoas com informação e conhecimento sobre factos constitutivos do objecto do processo.

2 10 - Sugerir a inclusão no relatório anual da Procuradoria-Geral da República de um capitulo especifico dedicado à violência doméstica.

2.11 - Propor, entre outros, a celebração de um protocolo entre a Ordem dos Advogados, o Ministério da Justiça e o Gabinete do Alto-Comissário para as Questões da Promoção da Igualdade e da Família, com o objectivo de dotar os advogados com formação especifica na área da violência doméstica para assistência as vitimas em todas as fases do processo.

2.12 - Possibilitar às organizações/associações com objectivos de protecção das vitimas de violência constituírem-se assistentes em processo penal, salvo oposição da vitima ou de quem legalmente a represente.

2.13 - Desenvolver uma rede de refúgios para vitimas de violência, cm parceria entre o Governo central. o poder local e organizações/associações particulares, com a eventual colaboração, com pessoal especializado, gestão e regulamentação adequadas ao contexto em que estão inseridas, de instituições privadas.

2.14 - Facilitar o acesso das vitimas de violência doméstica a cursos de formação profissional, bem como o acompanhamento e aconselhamento gratuitos, a fim de lhes facilitar um projecto de vida autónoma

2.15 - Fomentar a criação, nos centros de saúde, de equipas multidisciplinares que identifiquem, acompanhem e apoiem as vítimas de violência em consultas especializadas destinadas ao tratamento e acompanhamento dos agressores e das vítimas de violência.

2 16 - Fomentar o desenvolvimento de projectos de iniciativa privada e ou pública dirigidas aos agressores, no sentido de desenvolverem comportamentos não violentos,

 

Objectivo III

3.1 - Elaborar estudos sobre os custos humanos. sociais e materiais da violência doméstica

3.2 - Fomentar a recolha, o tratamento e a publicação de dados estatísticos relativos a violência doméstica que permitam a sua comparação a nível nacional, comunitário e internacional.

3.3 - Desenvolver projectos de investigação para a identificação dos factores e valores culturais que perpetuam a manutenção do ciclo da violência na família, bem como para a caracterização dos agressores, projectos que contribuam, de forma eficaz, para a prevenção da violência.

3 4 - Criar um observatório para o acompanhamento do problema da violência doméstica.

3.5 - Procurar o apoio dos órgãos directivos das instituições de ensino superior que realizam cursos nas arcas das ciências médicas, jurídicas e sociais para a realização de colóquios, seminários e conferências, com o objectivo da sensibilização dos alunos para a questão da violência doméstica.

Vigência do plano: O plano nacional contra a violência doméstica terá uma vigência de três anos a contar da data da sua aproximação, por resolução do Conselho de Ministros, devendo ser elaborados relatórios anuais para análise da sua execução que incluam a orçamentação dos meios financeiros adequados à execução das acções decididas.

 



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