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CRIANÇA
Criança

A CRIANÇA FACE À VIOLÊNCIA CONJUGAL
2009-08-04

Madalena Alarcão 

1. Definição e tipos de violência conjugal

Quando falamos em violência conjugal reportamo-nos a todas as situações de abuso (físico, emocional, sexual) que ocorrem entre cônjuges (Alarcão, 2002).
O abuso físico pode começar com um pequeno toque físico e continuar com empurrões, bofetadas, patadas, torceduras. Pode provocar aborto, lesões internas, desfigurações e chegar ao homicídio.
No abuso emocional incluem-se insultos, gritos, críticas permanentes, desvalorização, ameaças que podem levar à instalação de um quadro depressivo e ao próprio suicídio. De acordo com Katz & Arias (1999, in Ribeiro, 2001), este abuso emocional pode revestir duas formas: nas situações de dominação/isolamento o agressor submete a vítima forçando-a a ser subserviente e isolando-a do convívio com os outros, nomeadamente do contacto com os seus familiares; no formato de abuso verbal/emocional, o agressor desvaloriza, humilha e ameaça a vítima.
O abuso sexual inclui todos os actos sexuais realizados contra a vontade do parceiro, incluindo a violação.
Para existir violência recíproca cruzada (verbal e/ou física) é necessário observar-se uma simetria dos ataques e paridade de força física e psicológica entre o homem e a mulher.
Neste texto vamos reportar-nos à violência conjugal assimétrica, fundamentalmente física, ainda que o abuso emocional seja quase sempre concomitante.

2. A criança face à violência conjugal

No jogo da violência conjugal, a criança toma, geralmente, um papel activo na sequência do qual ela própria pode ser maltratada (Cirillo & Di Blasio, 1997).
Numa primeira etapa, face ao conflito conjugal, a criança começa por ser um mero espectador, embora mostre desagrado através de reacções esporádicas de ansiedade e irritabilidade. A relação conjugal é marcada por aproximações e afastamentos, por ameaças de ruptura a que se seguem sucessivas reconciliações, procurando cada um dos cônjuges transformar o outro e submetê-lo à sua vontade: enquanto um tem um papel de dominador aparentemente activo o outro assume o papel de vítima aparentemente passiva, embora, frequentemente, seja um provocador passivo.
A manutenção desta situação leva, numa segunda etapa, a criança a inclinar-se para o progenitor que considera vítima, procurando consolá-lo. Esse adulto, que muitas vezes experimentou um papel semelhante na família de origem, procura o apoio da criança, faz-lhe confidências sobre a sua insatisfação conjugal e espera dela uma relação de cumplicidade (coligação transgeracional). Numa situação de clara triangulação, a criança é utilizada pelos pais para regular os seus conflitos e as suas separações, só podendo sair dessa posição se o conflito conjugal se resolver.
Na etapa seguinte, de coligação activa do filho, a criança expressa a sua raiva, o seu medo, o seu rancor, a sua hostilidade contra o progenitor contra quem está coligado, podendo ter comportamentos de oposição e rebelião (p.e., negar-se a comer, a deitar, a fazer os deveres...). Por vezes é "levada" pela vítima a expressar a sua raiva e agressividade face ao agressor, podendo o seu comportamento agressivo intra-familiar expandir-se para contextos extra-familiares.
Na quarta, e última etapa, de instrumentalização das respostas da criança, o jogo familiar complexifica-se e a raiva e a agressividade da criança são interpretadas como sinais de rebelião e de desobediência e os castigos endurecem de forma notória. Os pais servem-se destes comportamentos para se atacarem, procurando cada um mostrar que é melhor do que o outro, num movimento que só aparentemente é de complementaridade pois, na realidade, é perante uma clara escalada simétrica que estamos. Sentindo-se um joguete, traída por ambos os pais e desconfirmada, a criança revolta-se contra ambos, tornando-se, simultaneamente, vítima e instigador. A violência familiar vai recursivamente alimentando-se...
O comportamento violento do progenitor maltratante pode, neste contexto, ser entendido como estando ligado à vivência de sentimentos de abandono, vivência tornada insuportável e não mentalizável dadas as dificuldades de elaboração da separação por interiorização de um modelo de vinculação inseguro. Enquanto criança, ele próprio foi, frequentemente, vítima directa ou indirecta de violência familiar. No entanto, não é apenas em virtude de um comportamento aprendido que este progenitor agride o seu filho: ele percebe que está excluído da coligação que se estabeleceu entre o companheiro e a criança e sente esta como uma situação de perda de poder. Geralmente a percepção é confusa e indefinida dada a própria natureza da coligação intergeracional que não pode ser claramente declarada. O que o sujeito percebe provém apenas de sinais indirectos analógicos, isto é, de sinais conectados com o comportamento do filho: a hostilidade, a rebelião e a agressividade que este lhe dirige, e que o companheiro nada faz para mitigar, constituem, então, o sinal da rejeição, da separação e da perda por parte daquele que se sente violentamente excluído e que, também por isso, se torna ainda mais violento como forma de "puxar" a criança para si e de a "moldar" de acordo com os seus desejos.

Nesta altura, a criança é muitas vezes sinalizada pela escola, ou por outros serviços, como estando em risco e é institucionalizada. Nem sempre esta colocação institucional finaliza o jogo familiar disfuncional. Por vezes, a instituição deixa-se entrar no jogo de alianças e de coligações familiares, potenciando a manutenção de comportamentos desorganizadores por parte da criança e não se constituindo como uma diferença que permita criar uma transformação.

3. Nota Final

Investigação diversa tem revelado que as crianças expostas à violência conjugal mostram, na forma como significam as experiências vividas, muitas semelhanças com as crianças que foram pessoalmente vitimadas. Quando ajudadas parecem, apenas, poder mais rapidamente prosseguir no sentido de um desenvolvimento ajustado (Sani,2002).
Frequentemente, sentem-se responsáveis/culpadas, considerando que, com o seu comportamento, contribuíram para que o mau trato ocorresse. Percebemos, no ponto anterior, como têm, na realidade, um papel no desenvolvimento do jogo familiar: mais passivo ou mais activo, esse papel não as torna, no entanto, responsáveis, no sentido de culpadas, pelo jogo de violência que se vive no interior da família. Enquanto elementos de um sistema, ela são uma parte cujo comportamento só pode ser compreendido, e transformado, no contexto da interacção do todo. É, pois, importante poder (re)construir com elas um sentido apropriado de culpa e de obrigação.
Decorre da percepção a que anteriormente aludimos, e do movimento de aliança que o progenitor-vítima com elas realiza, que estas crianças acham que podem influenciar/controlar o curso dos acontecimentos, agindo directa ou indirectamente no sentido de alterar a situação (p.e. meter-se no meio, pedir para parar, distrair, contar a alguém, chamar a polícia). Neste seu sentir fica clara a triangulação em que se encontram: dado a coligação e o registo transgeracional que lhe subjaz, esta triangulação só pode emparedar cada vez mais a criança pelo que a intervenção tem que ser realizada no sentido de a desparentificar e de a retirar da coligação transgeracional. É aqui que a colocação institucional pode, em determinadas circunstâncias, ser reorganizadora, sobretudo se, como afirmam Cirillo e Di Blasio (1997), ela criar o tempo e o espaço para que os técnicos possam, conjuntamente com a família, avaliar o seu potencial de mudança e a sua capacidade para "voltar" a cuidar das crianças

Bibliografia
Alarcão, M. (2002). (des)Equilíbrios familiares. 2 ed., Coimbra: Quarteto Editora. Edição original, 2000.
Cirillo, S. & Di Blasio, P. (1997). Niños maltratados, Diagnóstico y terapia familiar. 2 ed., Barcelona: Paidós. Edição original, 1989.
Ribeiro, S. (2002). Distúrbio Pós Stress Traumático e violência conjugal. Dissertação de Mestrado
não publicada. Instituto Superior Miguel Torga, Coimbra.
Sani, A. I. (2002). As crianças e a violência. Narrativas de crianças vítimas e testemunhas de crimes. Coimbra: Quarteto Editora.


Remissões

Coligação transgeracional
- Aliança entre dois elementos, de duas gerações diferentes, contra um terceiro. Esta coligação enquadra-se naquilo que Jay Haley designou como triângulo perverso. Neste tipo de triangulação, duas pessoas de níveis hierárquicos diferentes estão coligadas contra uma terceira, assumindo esta aliança a forma de uma transgressão intergeracional. Frequentemente, a aliança com o elemento em conflito é ocultada e/ou negada.

Desconfirmação - Forma de comunicação que nega a existência do Outro na relação.

Escalada simétrica - Forma de distorção do modelo de comunicação simétrico (de maximização das semelhanças entre os comunicantes) em que a interacção é caracterizada pela competição desenfreada entre os intervenientes da comunicação. Os comportamentos sucedem-se irreflectidamente na tentativa de responder, em espelho, ao comportamento do outro. A desigualdade torna-se insuportável, sendo intolerável para ambos a possibilidade de ficar a perder ou em posição inferior.

Jogo familiar - Padrão dinâmico de interacções (que se organizam e evoluem no espaço e no tempo) que encerra as tácticas relacionais usadas pela família. Muitas vezes, estas transacções são ocultadas, o que reforça não só a ligação entre os seus elementos como dificulta a transformação dos papéis.



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